No ônibus

Não sei porque cargas d'agua a inspiração para escrever me invade quando estou andando de ônibus. Fico a olhar pela janela que me parece mais uma película a rodar e quadro a quadro, as palavras vêem a minha mente e os textos surgem de forma fluida e criativa.

Certa vez, Marcela, jornalista e companheira de trabalho, solicitou a criação de um vídeo e disse: "Com essa antecedência, você terá tempo de sobra para andar de ônibus!" Tá, confesso que é meio esquisito e pior ainda, revelar que começo os textos do final para o início. (Tudo bem, coisa de doido), mas a receita vem dando certo até hoje.

Acho ônibus uma rede social fantástica! Em tempos de orkut, msn, twitter, facebook, sonico (se tiver mais alguma rede aí, me digam) perdemos a oportunidade de conhecer pessoas de carne e osso, de sentir, trocar idéias.

Ao sair do hospital, peguei um coletivo e fiquei a olhar a janela. Em certo momento, o ônibus parou e entrou uma figura fantástica! Pedro Henrique. Moreno, olhos castanhos escuros, tipo mel de engenho, cabelos bem cortados, magro, nariz arrebitado. Quando o vi, notei que seu rosto estava repleto de "pintinhas" características da varicela, popular catapora. De mãos dadas com a mãe, ele sentou ao meu lado e puxei conversa. Para iniciar, perguntei o óbvio: "É catpora?" e ele respondeu: "É." Daí a conversa cresceu ao ponto de eu perguntar se ele estava achando bom essas férias escolares forçadas. Então, dentro de sua inocência, me falou que ainda estava procurando uma escola, porque lá no bairro dele, não havia vaga em nenhuma unidade escolar.

Confesso que ainda fico chocada em saber que crianças estão fora da sala de aula por conta de falta de vagas. Depois de engolir em seco a questão social do nosso Estado que não fornece unidades escolares suficientes para abrigar nossas crianças, amenizei a conversa perguntando o que ele queria ser quando crescesse. "Quero ser doutor". E emendei: "Doutor médico, doutor psicólogo, doutor fisioterapeuta..." ao que prontamente disse que queria ser doutor médico. Sua vontade era ajudar a família com seus estudos. Depois, ele começou a viajar: "Quero ser doutor médico, taxista e fisioterapeuta. Ah! E ainda "dirigir" um avião. Mas se o avião "pifar" eu vou pro céu."Dei uma risada. Não que estivesse me aproveitando disso, mas pela criatividade e ingenuidade infantil. E então, começou a descrever o avião que um dia ele iria pilotar

Depois, ele virou entrevistador: "E você, o quer quer ser?" Não me conti em devolver a pergunta: "O que eu quero ser quando eu crescer?" Ele olhou pra mim e respondeu: "Mas você já cresceu". E o pensamento foi para longe. É verdade, eu já cresci. (Constatação difícil muitas vezes...)Respondi minha trajetória de profissões desde a infância quando eu queria ser professora e cabeleireira, até hoje na fisioterapia.

Enfim, depois de um longa conversa, chegou o momento da partida. Revelei-lhe, que havia sido um prazer conhecê-lo, ao qual muito educado, respondeu-me que gostara muito de nosso "papo".

Ele desceu do ônibus e eu fiquei a pensar...

Como é que nosso país permite que seu futuro fique longe dos bancos escolares, sem a oportunidade de concretizar sonhos? Nesse período decisivo onde nós temos nas mãos a chance de trasnformar o país, fico com a propaganda inteligente que vi na TV esses dias: O melhor candidato às eleições, se chama EDUCAÇÃO.

2 comentários:

gugaluca 3 de setembro de 2010 11:21  

Concordo, plenamente, com a sua conclusão, Déb. Infelizmente é esse o nosso pais.

Anônimo 3 de setembro de 2010 22:13  

É terrível ter de pensar em um lugar que prioriza copa do mundo ao invés de educar decentemente suas crianças. Sábias palavras, meu bem.
Beijos,
Pooh.

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As vezes uma brisa, as vezes um livro, as vezes uma música, as vezes um sorriso, as vezes uma lágrima, as vezes tudo, as vezes nada e sempre uma contradição.